Estudo pré-clínico avalia versões produzidas sem vetores virais, com perspectiva de reduzir custos e contribuir para o acesso futuro à imunoterapia
Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram duas versões humanizadas da terapia celular CAR-T. Publicado na revista Frontiers in Immunology, o estudo apresentou resultados promissores em laboratório e em modelos animais. A tecnologia ainda depende de investigação clínica para avaliar sua segurança e eficácia em pacientes.
Como funciona a terapia CAR-T?
A terapia CAR-T utiliza células T, integrantes do sistema de defesa do próprio paciente. Elas são coletadas e modificadas geneticamente em laboratório para reconhecer um alvo nas células tumorais. Depois, são devolvidas ao organismo para combater o câncer. Terapias direcionadas à proteína CD19 já são utilizadas em determinadas situações de leucemias e linfomas de células B.
Na pesquisa brasileira, a humanização modifica a parte do receptor CAR responsável por reconhecer esse alvo, originalmente derivada de um anticorpo de camundongo. O objetivo é torná-la mais semelhante às proteínas humanas e reduzir a possibilidade de o organismo reconhecê-la como estranha, favorecendo a permanência das células CAR-T.
Essa possível redução da resposta imunológica contra o receptor ainda precisa ser confirmada em pacientes.
O que os resultados demonstraram?
As versões H1 e H2 apresentaram atividade contra células tumorais em laboratório. Nos modelos animais de leucemia linfoblástica aguda de células B, a H1 se destacou pelo controle tumoral duradouro e pela sobrevida comparável à obtida com o receptor não humanizado utilizado como referência experimental.
A H2 apresentou menor persistência e sinais mais acentuados de esgotamento das células T. Os resultados favorecem a continuidade das pesquisas com a H1, mas não demonstram equivalência clínica com tratamentos comerciais.
Produção nacional e possibilidade de redução de custos
Outro diferencial é a utilização de um sistema não viral para modificar geneticamente as células. Essa estratégia dispensa a produção de vetores virais, uma etapa associada a custos elevados, e integra os esforços de pesquisadores brasileiros para tornar a fabricação de células CAR-T mais acessível.
A dimensão econômica é importante para o acesso. Em artigo de divulgação publicado em agosto de 2026, Martín Hernán Bonamino, pesquisador do INCA e um dos autores do estudo, estimou que o tratamento completo com CAR-T no setor privado brasileiro pode variar entre R$ 2 milhões e R$ 2,7 milhões por paciente, considerando o produto e os custos hospitalares. Essa estimativa não corresponde ao custo da tecnologia experimental.
O que falta para uma eventual oferta no SUS?
Os achados apresentados são pré-clínicos e não representam a disponibilização dessas versões para tratamento no SUS. Para uma eventual oferta regular, será necessário avançar nos estudos em seres humanos, cumprir as exigências regulatórias e passar pela avaliação de incorporação ao sistema público. Essa análise considera evidências de segurança, eficácia e efetividade, além dos benefícios e custos em comparação com as alternativas disponíveis.
Para o INAFF, a pesquisa reforça a importância de investir na ciência brasileira e na capacidade de produção nacional. Transformar esse potencial em acesso exige avaliação de tecnologias em saúde, financiamento sustentável e organização dos serviços. Também requer equipes multiprofissionais qualificadas, incluindo farmacêuticos, para assegurar qualidade, rastreabilidade e acompanhamento do tratamento. A inovação deve caminhar junto com a segurança dos pacientes e a equidade no acesso.
