A medida representa uma mudança relevante na estratégia regulatória, pois passará a adotar um modelo de monitoramento proativo em parceria com serviços de saúde e instituições técnicas em todo o país
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a implementação de um Plano de Farmacovigilância Ativa para monitorar o uso dos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. A medida representa uma mudança relevante na estratégia regulatória, pois passará a adotar um modelo de monitoramento proativo em parceria com serviços de saúde e instituições técnicas em todo o país. O monitoramento de suspeitas de eventos adversos relacionados a esses medicamentos dependia, exclusivamente, de notificações realizadas voluntariamente por profissionais de saúde.
A nova iniciativa está voltada à identificação precoce de eventos adversos em condições reais de uso. Segundo o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, a proposta é estruturar uma rede de vigilância mais integrada aos serviços de saúde. “Não podemos apenas esperar que as notificações cheguem à agência. É preciso organizar uma busca estruturada que permita detectar precocemente eventos adversos e qualificar as informações”.
Dados da própria agência revelam a dimensão do desafio. Entre 2018 e março de 2026, foram registradas 2.965 notificações de eventos adversos relacionados a essa classe terapêutica, com um aumento expressivo de casos em 2025, sendo que a maior parte das ocorrências está associada à semaglutida. O diretor da Anvisa, Thiago Lopes Cardoso Campos, destacou que a alta demanda pelas “canetas” tem alimentado a circulação de produtos falsificados ou manipulados em condições inadequadas, o que reforça a necessidade de uma vigilância rigorosa sobre a procedência dos fármacos. A venda de medicamentos irregulares é crime previsto no artigo 273 do Código Penal.
Portanto, a nova estratégia concentra esforços na fase pós-comercialização dos medicamentos, etapa em que efeitos raros, tardios ou relacionados a padrões específicos de uso tendem a se tornar mais evidentes. “Não basta registrar medicamentos. É indispensável acompanharmos como eles se comportam na vida real”, destacou Campos.
Para operacionalizar o plano de farmacovigilância ativa, a Anvisa contará com uma rede de parceiros estratégicos, como a Rede Sentinela, composta por hospitais, serviços de saúde, laboratórios e centros de pesquisa. Ademais, terá o apoio da rede Ebserh, que interliga hospitais universitários em todo o Brasil.
A Polícia Federal (PF) participará em ações integradas de fiscalização. Segundo Campos, o programa permanece aberto à participação de hospitais e instituições com capacidade técnica e comprometimento, tanto com a qualificação das notificações enviadas à vigilância sanitária, quanto com a promoção do uso seguro de medicamentos.
Para a Anvisa, o fortalecimento da farmacovigilância ativa será essencial diante da expansão acelerada do uso de agonistas de GLP-1 no Brasil e do aumento dos riscos associados à circulação de produtos irregulares.
O Instituto Nacional de Assistência Farmacêutica e Farmacoeconomia (INAFF) apoia e incentiva a divulgação de informações qualificadas sobre saúde no Brasil.

